Podia ser um dia como outro qualquer, mas é tratado como aquelas pessoas que queremos fazer de conta que nem conhecemos na rua.

Sim, falo mesmo da sexta-feira 13, o dia que ficou incumbido como o dia do azar e que, quem por azar tem azar nesse dia, sente que tem um temor ainda mais justificado.

Ilustração em tons pastel de uma mulher a usar um tablet num quarto calmo, com um gato preto por perto e um calendário na parede a marcar sexta-feira 13.


Como surgiu esta ideia geral?

Se são tão curiosos quanto eu, surgiu da mistura de lendas e tradições religiosas, como tantas outras ideias que repetimos quase em automático 🙅‍♀️

Falamos do dia em que Jesus Cristo foi crucificado, da prisão em massa dos cavaleiros templários, da interrupção da ceia dos deuses nórdicos pelo 13.º convidado… Se calhar há mais, mas ficam aqui estes.

Então só pode ser real?... Não vou discutir no que podes ou não acreditar. Apenas deixar o meu ponto de vista.


Quanto do azar é mesmo azar?

No fundo, o que quero perguntar é se algo que foi apenas um momento menos bom, e até possível de solucionar, continua a ser azar ou passa a ser apenas um problema que aconteceu naquele dia específico. 

Não falo da parte religiosa. Falo do que nós definimos como problema ou como azar.

É como persistir que canja faz mal porque foi no dia em que alguém com diabetes ficou cego. Eu sei, é "trenguice", mas por vezes ficamos presos a ideias estranhas 😅


Então é exagero dizer que tive azar?

Nem por isso. Podes sentir-te azarado naquele dia. Podes ficar frustrado, triste ou irritado. Faz parte. 

O que talvez não seja necessário é alimentar essa ideia ao longo do tempo, sempre que o dia se repete.

Sentir é natural. Ficar a viver dentro da história é que cansa.

Às vezes guardamos o episódio na gaveta mental “sexta-feira 13 = azar” e sempre que algo menos bom acontece nesse dia, reforçamos a etiqueta, quase como quem diz “eu sabia”.


Também é estranho como comparamos

Quando algo dói, muitas vezes tentamos diminuir a dor através da comparação. Dizemos que podia ter sido pior, que há quem esteja muito pior, como se fosse preciso relativizar tudo para merecermos sentir alguma coisa.

Às vezes isso ajuda. Outras vezes só empurra o que sentimos para mais tarde.

Como se a dor precisasse de um ranking para ser válida, mas sentir não é competição.


Não bate à porta e avisa

Durante muito tempo eu achava que as quartas-feiras eram dias terríveis, quase como as segundas-feiras para muita gente. E, curiosamente, acontecia sempre “algo” que depois acabava com a minha energia para o resto da semana.

Hoje penso que talvez não fosse o dia. Talvez fosse a expectativa.

O azar não bate à porta nem avisa, mas também não precisa de ensaio constante da nossa parte.

Talvez o equilíbrio esteja em permitir sentir quando algo corre mal, sem transformar isso numa identidade ou numa profecia repetida. 

Porque sentir que foi azar não te torna azarento. Torna-te humano.