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A frase que ficou entre duas amigas

Uma frase dita sem maldade. Duas versões completamente diferentes da mesma conversa.

A Laura não dormia bem há dias.

Não era falta de sono.
Era mais excesso de pensamento.

Naquela manhã, a filha respondeu-lhe de forma brusca. Nada propriamente fora do normal para uma adolescente, mas algumas coisas têm o péssimo hábito de ficar connosco mais tempo do que deviam.

Durante o resto do dia, a Laura fez aquilo que muitas pessoas fazem em silêncio: revisitou mentalmente cada detalhe da própria existência como mãe.

O tom de voz.
As regras.
As vezes em que insistiu demasiado.
As vezes em que talvez tivesse desistido cedo demais.

Quando a Catarina lhe mandou mensagem a perguntar se queria ir beber café, aceitou quase imediatamente.

Precisava de conversar com alguém que parecesse mais estável do que ela naquele dia.


O café

O café estava calmo. Poucas pessoas. Pouco barulho.

A Laura começou por dizer que estava cansada. Depois acabou a despejar a semana inteira em cima da mesa.

Falou da filha.
Da distância crescente entre as duas.
Da sensação estranha de já não saber se estava a fazer alguma coisa corretamente.

A Catarina ouviu tudo sem interromper muito. Como sempre fazia.

E depois, com um tom tranquilo, disse:

— Se calhar estás a levar isso mais a peito do que precisas.

A frase caiu na mesa sem peso nenhum.

Mas não ficou assim dentro da Laura.

Porque há dias em que certas frases não entram pela forma como foram ditas. Entram pela forma como já nos sentimos antes delas chegarem.

A Laura sorriu automaticamente. Aquele sorriso educado que aparece antes da reação verdadeira.

Assentiu com a cabeça.

Mas por dentro, qualquer coisa se fechou.

Levar demasiado a peito?

Como se fosse opcional.
Como se fosse possível desligar a culpa num interruptor invisível.


O resto da conversa

O resto da conversa continuou numa superfície estranhamente normal.

Mudaram de assunto.
Falaram de coisas pequenas.
Riram até, uma ou duas vezes.

Mas a frase continuou sentada entre as duas.

Daquelas frases que já ninguém está a repetir em voz alta… mas que continuam presentes na mesa.

A Laura saiu primeiro.

Disse que precisava de ir andando.
A Catarina sorriu, desejou-lhe força e ficou mais uns minutos no café.

Tudo parecia normal.


O caminho para casa

No carro, a tensão começou lentamente a desfazer-se.

E por baixo dela apareceu aquilo que estava realmente lá desde o início.

Cansaço.
Fragilidade.
O medo silencioso de falhar em coisas que não têm manual.

As lágrimas apareceram sem grande aviso.

A Laura limpou o rosto num gesto rápido, mesmo estando sozinha. Como se alguém ainda pudesse vê-la.

A estrada pareceu-lhe mais longa naquele dia.


Do outro lado da mesa

A Catarina ficou ainda alguns minutos no café, a mexer distraidamente a chávena já vazia.

Achou que a Laura estava mais leve quando saiu.

Não perfeita, claro. Mas melhor.

Enquanto arrumava a mala, pensou que às vezes a amiga era dura demais consigo própria.

Quis ajudá-la a ganhar distância.
Foi só isso.

Na cabeça dela, aquela frase significava:

“não carregues tudo sozinha.”

Pagou a conta, saiu calmamente e continuou o resto do dia sem imaginar que aquela conversa tinha ficado a ecoar de forma tão diferente do outro lado da mesa.


Às vezes não muda o que foi dito.
Muda apenas o lugar de onde foi ouvido.


O Reverso da Moeda é uma coleção de histórias sobre perspetivas, intenções e pequenas distâncias invisíveis entre aquilo que dizemos… e aquilo que a outra pessoa ouve.

Ilustração minimalista em aquarela de uma mulher junto à janela, dividida subtilmente entre luz quente e fria, representando diferentes perceções da mesma realidade.



Porque às vezes a mesma conversa vive em duas versões diferentes ao mesmo tempo.

🧾 O papel que pesa

Um destes dias estive na minha limpeza aqui por casa. Esta etapa específica era a trituração de papéis: tipo faturas, contratos ou simples anotações.

No meio disto estava a lista de procura de emprego. Não era uma lista qualquer. Era uma lista de uma jovem adulta, ingénua e perseverante, com um desejo profundo de trabalhar na área da saúde, mais precisamente em laboratório 👩‍🔬


Pode um papel pesar assim tanto?

Sim. Para mim, um papel tão singelo e leve tornou-se um peso enorme. Emoções e sensações a mil... não só daquele passado, como do futuro que o acompanhou.

Senti durante umas horas que não o podia apenas ver ser triturado. Tinha de fazer um luto… quase que desejava um funeral viking 🔥


Ilustração minimalista de mulher a colocar uma folha numa trituradora, com tiras de papel a transformar-se em pequenos símbolos



Sobre o que era a lista?

Uma lista de potenciais empresas onde podia trabalhar, após ter concluído a licenciatura. Todas a quem tinha enviado carta e/ou email. Ah, e nem incluía as que entreguei em mãos.

Infelizmente (ou felizmente), e apesar das mais de x empresas, poucas responderam e nem uma única entrevista. Ainda recordo da empresa que só me respondia se enviasse por carta e depois deu resposta negativa por email 🥲


E a batalha contra as emoções?

Não foi fácil. Tive de encarar várias etapas:

  • sentir que algo foi começado, mas nem ter tido test drive
  • a ideia de que pagas… e ainda bufas
  • ouvir pessoas a dizer “estudasses” e apetecer aprender a dar bufetadas de diploma
  • confiar na saúde, para depois ser o que mais te morde o rabo passado anos

Mas no fim aceito. Eu estou onde estou porque passei pelo que passei. E vou chegar ainda mais longe 😎


E então, como ficamos?

Houve uma situação caricata em que me ligaram passados 6 anos. Escusado será dizer que já mudei de área, e nem me sentia preparada sequer para voltar.

A pessoa que me ligou, óbvio, nem imaginava que já tinha mudado de área, nem tudo o que passei. Mas foi aí, assim como ao olhar para esta lista, que percebi aquele fantasma que me acompanhava.

Por isso, fiz o meu luto, agradeci durante alguns minutos… e apenas deixei ir. 🌬️

💧Sou uma gota aventureira

Com a chuva, o que mais vejo da janela são os caminhos que as gotas trilham. Muitas seguem o mesmo percurso, outras aventuram-se por novos.

E quando pensas que já não há mais caminho a ser desbravado, lá vem outra gota destemida e faz um cruzamento entre ruas 😂


Mulher a observar gotas de chuva na janela, com diferentes percursos a escorrer pelo vidro


Não remar contra a maré

Em muitas situações sou apologista desta ideia... ou pelo menos pensava que era. Até perceber que o motivo pelo qual não me dou com tanta gente é por ter o hábito de ser o contrário 🙃

Afinal, se seguires as mesmas linhas, é muito mais fácil seres aceite. E menos trabalho ou energia gastas.


Travar novos caminhos

Também não posso dizer que era deste tipo. Estagnava muito no conforto, por achar que assim me protegia e me sentia melhor.

É desconfortável e podes dar com vários becos sem saída, mas é, sem dúvida, a melhor forma de te descobrires, e de descobrires novas pessoas.


A do ponto de cruz

Ah sim, aquela gota que vai por um caminho e só descobre atalhos. Recordo-me daquelas voltas de domingo em que não há nada para fazer, então vai-se descobrir ruas de Portugal.

Pode ser bastante útil para perceber novas formas, uma nova perspetiva de ver as coisas que já conhecíamos.


E a não linear

Eu sou mais esta. Tanto estou bem num caminho, como depois mudo, como depois apenas cruzo. Diria que estou nesta fase da vida.

Porquê que é melhor? Simples: porque a vida em si precisa de um pouco de rotina, um pouco de mudança e uma pitadinha de ciclos.

Se eu fosse uma gotinha, aquilo para mim seria como um parque aquático só para deslizar e apreciar a vida. Curta, mas bem vivida. 💙

🍄 Subi de nível, sem um cogumelo

Lamento, senhor canalizador bastante famoso, mas é mesmo esta a realidade. Não precisei de um cogumelo mágico para subir de nível na realidade.

Literalmente mais uma primavera, passou. E sinto sem dúvida profundas mudanças. Até digo que sinto aquelas dores de crescimento, mesmo que estejam mais de 10 anos atrasados 🤭



Mulher a olhar um cogumelo mágico no chão ao entardecer


É a PDI: prazer da idade

Oh yeah! 😎 Vejo imensas pessoas a queixarem-se de dores e/ou da idade que não perdoa.

Não tenho essa mentalidade. A cada dia que passa o meu objetivo é o mesmo: ganhar o prazer de viver!

E tenho atingido a pouco e pouco patamares que nunca imaginei. E para mim isso em si é magia, pois engloba saúde em várias frentes: física, mental e espiritual.



Da consciência à liberdade

Não digo que são tudo rosas. Ah se fosse...

Apenas um ganhar de consciência muito mais realista, sem estar sempre numa maré de simples queixume e com uma boa dose de ação, com apoio óbvio das pessoas certas.

Essa consciência foi sendo trabalhada, e agora vem a dita liberdade. Passar da teória à prática, é a beleza de tudo na vida.


Que tipo de liberdade, senhora?

Senhora não, menina se faz favor. Mesmo quando tiver 100 anos, sou menina 😚

Ora bem, vamos para uma lista de ideias gerais?

Aqui vai:

- minimização ou até remoção de traumas

- aumento do amor próprio

- melhoria de relações, em geral

- mudanças de hábitos "maus"

Há tanto a dizer... Mas, para exemplos de maior grau: já não tenho medo de alturas; consigo dizer que "não" e aplicar limites.

Se vos mostrasse como me vestia e como me visto agora, nem reconheciam 😆


E o cogumelo mágico?

Não, não existe. Não fui ao médico pedir uma pastilinha para o que sentia, fazia e/ou vivia. A resposta nunca está no caminho mais "fácil" (irónico acharem isso, quando é o que traz mais complicações 🤔).

Antes pelo contrário! Eu fugi a medicações, e procurei quem realmente me escutasse, me desse rotas que me faziam mais sentido, e acima de tudo comecei a seguir muito mais a intuição.

Afinal, sempre acertei nas pessoas das quais me devia distanciar, apesar de antes não o fazer para da oportunidade...

Só não acerto é no Euromilhões 🥹


Oh, mas és novinha

Aí, obrigada! Eu sei... e sinto isso hehe

Não sou jovem, nem velha. E conheço pessoas com mais idade que têm igualmente tido jornadas espetaculares.

Eu não quero que te compares a mim. Eu quero é que penses para ti: "O meu corpo quer me dar sinais? Estou feliz? Sinto-me bem?"

Tu és importante. Só ao cuidares de ti é que o resto flui.


Por isso, parabéns para mim! 🎉

Não só por mais um ano, mas por milhares de batalhas ganhas ou perdidas, que me têm mudado para melhor.

🐣 Sexta-feira Santa: o quão precisa eras

Há semanas que sinto que estou a viver numa espécie de episódio especial… daqueles que ninguém pediu, mas que apareceu na grelha na mesma.

Uma mistura entre reality show e sobrevivência moderna, onde a prova final é: chegar ao fim da semana com alguma dignidade e sem responder “ok” a tudo.

E no meio disto tudo, surge ela.

A Sexta-feira Santa.

Não como um simples feriado, mas como aquele oásis no meio do deserto. Imagino tipo cena de filme em que a personagem já está meio perdida e, de repente, vê água… e desta vez não é miragem. 😍

Mulher a descansar numa espreguiçadeira num ambiente calmo enquanto o caos de tarefas fica para trás, simbolizando pausa e descanso na Sexta-feira Santa


Corpo em modo S.O.S.

Há um momento muito específico em que o cansaço deixa de ser elegante.

Já não é aquele “estou cansada, mas funcional e com boa postura”.
É mais um “se me deito agora, fico aqui até domingo… ou até setembro, não sei bem”.

E mesmo assim, continuamos a abrir mais abas do que devíamos. Afinal, quem nunca teve 17 separadores abertos, incluindo um que ainda diz “receita saudável 2021”? 😅

Respondemos a mensagens com emojis estratégicos, dizemos “sim” quando claramente era um “deixa-me pensar”, ou sendo mais realista, um “não, obrigada”.

É quase como se estivéssemos numa versão beta de nós próprias. Funciona… mas com falhas.


O luxo raro de uma pausa

E depois há este dia, esta sexta que é realmente santa. Uma pausa oficialmente validada pela sociedade.

Este dia em que, de repente, o mundo abranda sem termos de justificar nada a ninguém.
Sem aquele discurso interno de “devia estar a ser produtiva” a tocar em loop tipo música irritante de elevador.

Durante o resto do ano, descansar parece sempre um projeto:

“Vou descansar, mas antes só trato disto, disto e… pronto, já não descansei.”

Aqui não, aqui o descanso é VIP. Sem pré-condições, sem listas.

Há menos barulho. Menos pressa.
Menos notificações a piscar como se fossem luzes de Natal fora de época.

E nós… começamos, muito devagarinho, a lembrar-nos de como é estar.


Pequenos sinais de que estamos a voltar a nós

O mais curioso é que o descanso não chega com fogo de artifício.

Este entra devagar, quase discreto.

  • Já não sentimos necessidade de “aproveitar o tempo ao máximo”
  • O silêncio deixa de ser desconfortável
  • O corpo começa a largar aquele estado permanente de alerta

E há um momento que é pequeno, mas muito real, em que pensamos:

“Ah… afinal eu ainda sei estar aqui.”

Sem pressa, sem performance.
Sem tentar transformar um dia de descanso num projeto de desenvolvimento pessoal.

Hoje, organizamos só… o fazer nada. Dar-nos ao luxo do conforto da casa, ou do solinho bom que está lá fora. 😌


Uma pausa com sabor a recomeço

Não se trata de abandonar tudo e ir viver para uma cabana no meio do nada (apesar de, em certos dias, parecer uma excelente opção). 😏

Mas talvez seja isto: lembrar que não precisamos de estar sempre no máximo.

Nem sempre a dar tudo.
Nem sempre a otimizar, melhorar, crescer, evoluir, beber água, fazer alongamentos e manifestar objetivos ao mesmo tempo.

Às vezes, basta… pausar. E dias como a Sexta-feira Santa são esse lembrete gentil.

É como carregar no botão “reiniciar”, mas sem perder nada importante.
Só aquele reset suave que limpa o excesso.

Quase como um “calma, não precisas de correr hoje”.


É só isto, e chega perfeitamente

Por estes dias não vamos fazer nada extraordinário.

Não vamos resolver a vida. Nem ter ideias revolucionárias.
Nem criar um plano detalhado para os próximos 6 meses (apesar de o Pinterest sugerir).

E ainda bem. Porque há dias que não pedem transformação. Pedem só presença.

Um sofá confortável. Um silêncio que não pesa.
E aquela sensação rara de não estar atrasada para nada.


🌿 Sugestão de leitura interna

(perfeitos para prolongar esta pausa sem grandes exigências)


No fundo, a Sexta-feira Santa não veio resolver tudo. Mas veio trazer espaço.

E honestamente… depois destas semanas meio caóticas, isso já parece quase um milagre moderno. 🐣✨

🐰 É mais fácil aceitar que um coelho distribui ovos

Há coisas na vida que simplesmente aceitamos sem questionar. Uma delas é um coelho que distribui ovos. 🐰🥚

Não é galinha. Não é uma marca com estratégia de marketing agressiva. É um coelho.

E nós alinhamos. Compramos amêndoas, montamos cabazes, escondemos ovos pela casa como se fosse uma operação secreta digna de filme… e ninguém levanta uma sobrancelha.

Como se o preço do chocolate não tivesse subido e como se o combustível não estivesse a fazer-nos repensar cada deslocação.

Isto faz sentido? Não. E mesmo assim funciona.

E o coelho? Esse continua gratuito e emocionalmente estável. 🐰


O mistério dos ovos (e das nossas regras)

Agora experimenta comer amêndoas “a mais”.
De repente, já há regras. Já há equilíbrio. Já há aquela voz interior a dizer:
“talvez não precises da décima…” 🍫

Curioso, não é?

Aceitamos um coelho ilógico… mas não aceitamos um pequeno exagero.

Crescer é estranho.

A certa altura, deixamos de viver as coisas e passamos a geri-las. Gerimos o que comemos, o que sentimos, o que mostramos…

Até a Páscoa vira um mini projeto de autocontrolo.


Amêndoas, culpas e pequenos dramas

E nem é pelo chocolate, é pelo que vem depois.

Aquela análise silenciosa, o “amanhã tenho de compensar”.
Aquele peso leve que aparece sem ter sido convidado.

Como se cada amêndoa viesse com um relatório emocional incluído.

Mas a verdade é simples: ninguém muda de vida por causa de meia dúzia de amêndoas.

Mas muita gente se cansa por tentar ser impecável o tempo todo. 💅


Saltitar sem grande plano

Se pensarmos bem, o coelho não anda. Este salta.

Não planeia. Não otimiza. Não faz listas.

Simplesmente vai.

Saltitar não é perfeito, contudo é leve.

E talvez seja isso que nos anda a escapar.

Andamos tão ocupados a tentar fazer tudo “certo” que nos esquecemos de fazer as coisas… com alguma margem para sermos humanos.

Para exagerar um bocadinho, e para rir quando exageramos.
Para seguir em frente sem transformar tudo num evento. 🎬


Talvez a leveza seja suficiente

Talvez o equilíbrio não esteja em fazer tudo bem.
Está em não dramatizar tanto o que não é assim tão grave.

No fundo, a Páscoa não traz respostas profundas. Mas traz um coelho improvável que aparece todos os anos como quem diz:

“relaxa… não precisa de fazer tanto sentido assim.”

E talvez crescer seja isso mesmo. Levar a vida um bocadinho menos a sério… e, de vez em quando, saltitar sem grande plano. 🐰✨


Rapariga a segurar um cesto com ovos enquanto um coelho permanece ao seu lado


💐 Ser mulher: ser imperfeitamente perfeita

 Hoje fala-se muito sobre o mês da Mulher, e para mim isso costuma trazer duas coisas: reflexão… e uma leve sensação de que devia ter percebido a vida um bocadinho melhor até agora. 😅

Mas pronto... Ainda estamos a tempo.


O mês da Mulher e estas reflexões que aparecem

Ao longo da vida existem muitas expectativas sobre aquilo que devemos ser.


Como mulheres.

Como profissionais.

Como adultos responsáveis.


Responsáveis ao ponto de saber cozinhar algo além de massa com qualquer coisa por cima. 🍝

Ou pelo menos saber dobrar um lençol com elástico sem entrar numa crise existencial.

Confesso que essa ainda é uma batalha em aberto...


As expectativas que vêm com a idade

Existe uma ideia meio silenciosa de que, à medida que crescemos, deveríamos ir ficando cada vez mais seguros, certos, organizados e confiantes.

Tipo aquelas pessoas que parecem saber exatamente o que estão a fazer na vida.

Sabem aquelas pessoas que têm agenda organizada, plantas vivas e até marmitas para a semana toda? Sim… essas. 👀

Começo a suspeitar que algumas também estão só a improvisar.


O pequeno problema das expectativas

Com o tempo percebi algo curioso.

A segurança que procuramos raramente vem de cumprir todas essas expectativas.

Porque mesmo quando conseguimos cumprir algumas… aparecem logo outras novas.

É quase como aqueles jogos em que passamos de nível e de repente surgem mais obstáculos.

E nós só queríamos um bocadinho de descanso.😅


O verdadeiro trabalho da vida

Com os anos percebi algo que ninguém explicou muito bem quando éramos mais novos.

A verdadeira segurança não vem de sermos exatamente aquilo que esperavam de nós.

Vem de conseguirmos sentir-nos confortáveis com quem somos, ao nosso ritmo, com as nossas mudanças e curvas estranhas que a vida vai desenhando.

Mesmo quando isso significa admitir que… ainda estamos todos um bocadinho a improvisar.


Talvez crescer seja apenas isto

Talvez crescer não seja tornar-se numa pessoa perfeita, organizada e cheia de certezas.

Talvez seja apenas aprender a ser, ao mesmo tempo, mulher, menina e moça.

E conseguir rir um bocadinho pelo caminho.

Porque entre expectativas, planos e improvisos…

o humor continua a ser uma ótima estratégia de sobrevivência. 😄


E por isso, para mim, ser mulher é ser imperfeitamente perfeita, apenas trilhando o seu caminho e vivendo o seu dia-a-dia o melhor que sabe.


Ilustração de mulher adulta e criança num campo de flores


🐈‍⬛ Pensar em azar… torna-nos azarentos?

Podia ser um dia como outro qualquer, mas é tratado como aquelas pessoas que queremos fazer de conta que nem conhecemos na rua.

Sim, falo mesmo da sexta-feira 13, o dia que ficou incumbido como o dia do azar e que, quem por azar tem azar nesse dia, sente que tem um temor ainda mais justificado.

Ilustração em tons pastel de uma mulher a usar um tablet num quarto calmo, com um gato preto por perto e um calendário na parede a marcar sexta-feira 13.


Como surgiu esta ideia geral?

Se são tão curiosos quanto eu, surgiu da mistura de lendas e tradições religiosas, como tantas outras ideias que repetimos quase em automático 🙅‍♀️

Falamos do dia em que Jesus Cristo foi crucificado, da prisão em massa dos cavaleiros templários, da interrupção da ceia dos deuses nórdicos pelo 13.º convidado… Se calhar há mais, mas ficam aqui estes.

Então só pode ser real?... Não vou discutir no que podes ou não acreditar. Apenas deixar o meu ponto de vista.


Quanto do azar é mesmo azar?

No fundo, o que quero perguntar é se algo que foi apenas um momento menos bom, e até possível de solucionar, continua a ser azar ou passa a ser apenas um problema que aconteceu naquele dia específico. 

Não falo da parte religiosa. Falo do que nós definimos como problema ou como azar.

É como persistir que canja faz mal porque foi no dia em que alguém com diabetes ficou cego. Eu sei, é "trenguice", mas por vezes ficamos presos a ideias estranhas 😅


Então é exagero dizer que tive azar?

Nem por isso. Podes sentir-te azarado naquele dia. Podes ficar frustrado, triste ou irritado. Faz parte. 

O que talvez não seja necessário é alimentar essa ideia ao longo do tempo, sempre que o dia se repete.

Sentir é natural. Ficar a viver dentro da história é que cansa.

Às vezes guardamos o episódio na gaveta mental “sexta-feira 13 = azar” e sempre que algo menos bom acontece nesse dia, reforçamos a etiqueta, quase como quem diz “eu sabia”.


Também é estranho como comparamos

Quando algo dói, muitas vezes tentamos diminuir a dor através da comparação. Dizemos que podia ter sido pior, que há quem esteja muito pior, como se fosse preciso relativizar tudo para merecermos sentir alguma coisa.

Às vezes isso ajuda. Outras vezes só empurra o que sentimos para mais tarde.

Como se a dor precisasse de um ranking para ser válida, mas sentir não é competição.


Não bate à porta e avisa

Durante muito tempo eu achava que as quartas-feiras eram dias terríveis, quase como as segundas-feiras para muita gente. E, curiosamente, acontecia sempre “algo” que depois acabava com a minha energia para o resto da semana.

Hoje penso que talvez não fosse o dia. Talvez fosse a expectativa.

O azar não bate à porta nem avisa, mas também não precisa de ensaio constante da nossa parte.

Talvez o equilíbrio esteja em permitir sentir quando algo corre mal, sem transformar isso numa identidade ou numa profecia repetida. 

Porque sentir que foi azar não te torna azarento. Torna-te humano.